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Sala de Aula ou Cena de Crime? A Vulnerabilidade que Mata

A sala de aula sempre foi vendida como o santuário do intelecto, o lugar onde o futuro é forjado. Mas, no dia 6 de fevereiro de 2026, em Porto Velho, essa promessa foi quebrada da forma mais irreversível possível. A professora Juliana Santiago não foi vítima de uma bala perdida na rua ou de um assalto no trânsito. Ela foi assassinada dentro da sala de aula, no exercício de sua profissão, diante de alunos que ali estavam para aprender, não para testemunhar o horror.

Esse crime bárbaro não foi um raio em céu azul. Foi o ápice de uma negligência estrutural que venho observando, há tempos.

Como acadêmico de Direito, aprendo sobre o dever de guarda e a responsabilidade objetiva das instituições. Porém, ao caminhar pelos corredores universitários, o que vejo e percebo desafia qualquer lógica de proteção. Em muitas faculdades, o conceito de “segurança” inexiste. Não há catracas, não há detectores. O acesso se dá, muitas vezes, por portas escancaradas, uma, duas, três entradas sem qualquer triagem, por onde qualquer pessoa transita livremente. A mente criminosa não encontra barreiras, encontra facilidades, tudo que ele mais precisa e explora.

Os sinais de que a tragédia se avizinhava já estavam lá. Ainda em 2025, vivemos o prelúdio desse terror em um campus universitário de Rondônia. Naquela ocasião, um estudante estava em sala de aula portando uma faca.

Não houve sirenes. Não houve intervenção de guardas. A segurança institucional falhou antes mesmo de o aluno cruzar o portão. O que evitou o pior naquele dia de 2025 não foi um protocolo de defesa, mas a percepção aguçada de colegas que notaram uma inquietação anormal, um comportamento que destoava da rotina acadêmica.

A aula não terminou. O que se seguiu foi uma evacuação silenciosa e aterrorizante, movida pelo instinto de sobrevivência, por alguns, não por treinamento. Muitos sequer haviam percebido a iminência do risco. A Polícia Militar, acionada por um dos estudantes, chegou para encontrar a arma e confirmar o risco real.

Quem viveu aquele dia em 2025 carrega uma cicatriz invisível. Não quer correr o mesmo risco. A sensação de estar jogando uma roleta russa a cada chamada de presença. As perguntas que ecoavam na mente era: “E se ninguém tivesse percebido a tempo?” “E se o ataque tivesse iniciado?” “Quem seria a primeira vítima?”. Em 2026, com a professora Juliana, infelizmente, a resposta veio da pior forma. Não houve tempo de evacuação, não houve percepção.


Há um padrão macabro se desenhando e ele tem uma assinatura: armas brancas. Facas são silenciosas, fáceis de esconder em mochilas que ninguém revista e letais em ambientes confinados. Enquanto discutimos teorias pedagógicas, ignoramos que nossos portões estão abertos para quem quiser entrar armado.

O questionamento que faço agora, como aluno e cidadão, é direto e desconfortável: Quantos avisos são necessários?

O incidente de 2025 foi um aviso. O assassinato de 2026 foi a concretização do pesadelo. A segurança pública tem seu papel, sim, mas a universidade é um prestador de serviço que tem o dever legal de garantir que seus alunos e professores voltem vivos para casa. Esperar a polícia chegar para “resolver” uma ocorrência em andamento não é segurança; é gestão de cadáveres.

“Vidas importam” não pode ser apenas uma nota de pesar no Instagram da instituição no dia seguinte, manchetes em portais de notícia. Precisamos de controle de acesso real agora. Precisamos que as “entradas” tenham guardiões, que as mochilas passem por crivo, que a segurança deixe de ser uma ilusão estética.

A vulnerabilidade dos campi não é uma sensação, é um fato comprovado com sangue. Aos gestores e reitores, deixo a reflexão final: o custo de um detector de metais ou de uma equipe qualificada é alto? Experimentem calcular o custo de uma vida, ou da sua vida.

Por Edson Saibel Ullig –  Acadêmico de Direito da Estácio Fap